Depois de alguns dias as forças da natureza entraram em ação, o grão de milho germinou e uma pequena folha rompeu a terra e levantou o torrão contrastando o cinza da terra com o verde escuro da planta recém nascida. O agricultor visitou o roçado e viu com alegria seu plantio, ao voltar para casa teve a ideia de criar um espantalho para assustar os pássaros, senão eles arrancariam as plantas.
Passando perto de uma antiga casa de farinha viu dois rodos de torrar massa, apanhou-os e os levou. Foi até o casarão do engenho velho e encontrou um gibão abandonado e um chapéu de palha desgastado pelo tempo, em cima da moenda uma antiga acordeon que usada pelos peões em noites de festas.
Juntou tudo isso e construiu um espantalho e levou para a roça deixando em um ponto estratégico. Colocou um punhado de arroz com casca no bolço do gibão que vestia o espantalho e disse: Seja um bom garoto e pastore a minha planta. Voltou depois de uma semana e ficou surpreso, o terreno parecia um gramado de tão verde e nenhum pé de milho arrancado.
Mas algo estranho tinha acontecido, encontrou vários pássaros mortos. Galos de campina, corrupião, sabiá, bem-te-vi, graúna e outras espécies, ele juntou todos colocou nos pés do espantalho e comentou: Muito bem, além de pastorar ainda os matou de medo, olhou no bolso e do gibão e o arroz ainda estava todo lá, ele tirou uma parte e jogou para cima, e nesse momento todos os passarinhos voaram e desapareceram.
Meio assustado saiu bem ligeiro, e para piorar a situação ouviu uma gargalhada aterrorizadora. Tomou uma decisão, havia colocado ele ali para assustar mas no dia seguinte iria tirar ele e jogar no rio, alguma coisa estrava errada.
Voltou no dia seguinte para destruir o espantalho mas ele tinha criado vida e a cada golpe que levava, gemia ou gritava. O homem era corajoso e tentava arrancar ele do chão mas não teve sucesso, imaginou que a noite seria menos cansativo e voltou. Ao aproximar-se ouviu uma algazarra e lá estava ele contando suas proezas e fazendo um comentário junto a algumas árvores.
Vejam o que os humanos fazem, desmatam, queimam destroem os ninhos fazem tudo que querem e ainda quer que eu fique assustando quem já vive assustado por não ter monde morar. Eu lembro desse lavrador quando era pequenino, quando uma coruja piava ele tremia todo e corria para os braços dos pais, mas esqueceu muito rápido o quanto é ruim ter medo.
Hoje ele está ali encarando essa situação e tentado entender, mas ontem saiu correndo com medo de uma gargalhada, é difícil de entender porque quando o tempo passa algumas pessoas esquecem que já foram pequenas e ficam tão insensíveis. poderiam ficar mais amáveis e lembrar alguma coisa boa e fazer o bem.
Essa acordeon que está em meus braços já tocou para ele dormir, esse gibão era o seu esconderijo preferido quando brincava, o chapéu pertencia ao seu avô, e os rodos torrava a farinha que ele comia, mas agora é incrível, cresceu e não lembra de nada.
Ah eu já vi muitas histórias de quem esquece quem ama, os amigos, os momentos, esquece até de ver a vida boa que vive sabe por que? Porque não sabem que um dia tudo vai ser saudade, vai olhar e não ver, e se ver seria melhor nem olhar, porque somos apenas espantalhos que vivemos assustando, com a falta de amor, com a aparência, com a ganância, a ingratidão, o faz de conta, assustamos e não temos nenhum remorso, porque esquecemos rápido demais a quem nos amou verdadeiramente.
E agora esse espantalho que vos fala, é somente mais um fantasma do tempo, e o tempo sim é o fantasma que assusta todos com as suas mudanças, a com as suas inconfundíveis marcas as quais todos sentirão seus efeitos.e o pior é que ele não avisa ninguém.
Ass. Maninho