VIDA E MORTE NO SERTÃO

    Falar do passado, é uma das formas mais fáceis para valorizar o presente. Com a evolução constante, olhamos para o passado, e vemos uma dívida impagável com as classes mais pobres, que iguais a bravos guerreiros resistiram ao tempo, e superaram fome e sede esperando por dias melhores, e tal qual as pedras do deserto, ficaram até o fim e não viram esse dia chegar.

    Os carrapichos grudados no vestido da dona Ormezinda, e as canelas riscadas pelos espinhos do velame, denunciam a pressa que ela tinha para chegar em casa. Tinha ido a casa de dona Maria pedir um pouco de feijão, se tivesse inverno, quando colhesse pagava. Chegou em casa, foi assoprar o fogão a lenha para cozinhar o feijão na tradicional panela de barro. Pegando com muito cuidado para não quebrar, só tinha aquela. Depois de grande esforço e quase estourando as veias do pescoço de tanto assoprar, emfim o fogo pegou.

    Uma cuia com milho pubo esperava por ela, agora se debruçaria sobre o moinho e ia moer o milho para fazer a mistura do almoço, os filhos chorando com fome, puxavam o vestido já com vários remendos e quebrando a costura de alguns. Dona Ormezinda pacientemente diz: Vão brincar, boto já o almoço de vocês. Mas o choro continua, como é que brinca, com fome. Seu Manoel chegou trazendo um prear, que por infelicidade, procurando alimento caiu em uma armadilha, triste realidade, uns perdem a vida, para que outros continuem vivos.     Ao verem seu Manoel com o prear, as crianças esqueceram a fome e começaram a brincar com o bichinho morto, e seu Manoel comentou, a janta está garantida.

    Almoçaram feijão com pão de milho, tomaram café torrado junto com semente de manjerioba que era para render mais,o café era adoçado com rapadura salgada, porque não tinham como comprar açúcar ou rapadura doce, já estavam acostumados com a quilo. Seu Manoel pegou um pedaço de fumo de Arapiraca e fez um cigarro enrolado em palha de milho, papelin não podia comprar, tinha de ser com palha de milho mesmo.

    Depois do almoço, planos para o futuro: Minha veía, se o inverno for bom, vai ter muito trabalho lá em seu Luiz, aí fim do ano eu vou comprar um vestido novo para você e uma roupinhas para as crianças, se sobrar dinheiro, eu compro umas botas para mim, e a mulher diz, vamos rezar para chover,e pedir que a safra de algodão seja boa, aí seu Luiz chama a gente para apanhar algodão.

    É, mas o ano foi sêco, e não tinha nem batata de aguapé para comer, mas tinha fruto de cardeiro, juá, e algumas rolinhas caldo de feijão, ou as pobres avuantes mortas de sede.

    Pena que um dos filhos não vai ver o ano chegar ao fim, morreu com sarampo. Os vizinhos tentam consolar: É mais um anjo no céu. É, o céu está cheio de anjos enviados por demônios da terra, seres sem consciência, que pegam as verbas enviadas pelo governo, e se beneficia, sem o mínimo de remorso pela a morte do filho de seu Manoel, que faltou apenas uma vacina, e uma alimentação adequada, para que ele pudesse ver vários invernos e ganhar a roupa de fim de ano.

 

    Ass.  Maninho.